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Constelações do Caos – por Sneh Schnabel

Rodrigo Ramos Constelações Sistêmicas

Como tudo começou

Como eu não poderia me apaixonar pelo caos? Já que ele me trouxe as soluções mais surpreendentes, inteligentes e bem humoradas; soluções que ninguém poderia imaginar; soluções que vêm de onde menos se espera, como ocorreu no meu primeiro e tímido contato com o caos em uma constelação que eu estava facilitando.

Nós estávamos “emperrados”. A imagem da constelação não se movia; não aparecia nenhuma solução e a energia estava lentamente se esvaindo da constelação. De repente, uma participante que estava sentada no círculo levantou-se e fez algo impensável: ela caminhou direto através do espaço da constelação para pegar algo para beber no lado de fora da sala. O grupo de participantes (e eu) não conseguia acreditar; eu estava pronta para abordar a “invasora” (“como você ousa…”) quando, de repente, eu vi com o canto do olho que a imagem “emperrada” da constelação começou a se mover. E isso era interessante! Eu deixei a invasora repetir o caminho que ela tinha tomado, dessa vez de maneira vagarosa e consciente. E um suspiro de alívio tomou os representantes. “Ela estava faltando!”; “Precisamos dela; sem ela não estamos completos”. Foi então fácil encontrar a pessoa que nós tínhamos esquecido de incluir.

Desde aquele momento, eu mantenho um olhar atento ao que está acontecendo com as pessoas “de fora” da constelação e aprendi a observar os sinais em toda a sala e até no ambiente. Uma rajada de vento repentina que abre uma porta, o som de um trovão se aproximando, um pássaro acidentalmente atingindo a janela; tudo isso pode nos encaminhar a um entendimento e a uma solução.

Sinais

O relato a seguir é um exemplo de como nós fomos ajudados por um incidente que aconteceu com um grupo de formação durante constelações na natureza. O exercício seria o de incluir partes reais da natureza como recursos da constelação.

Eu certamente nunca esquecerei como um pássaro morto flutuando pacificamente em uma lagoa se tornou um sinal significativo de amor e força.

Uma jovem mulher escolheu água como seu recurso para sua constelação e todos nós nos posicionamos na margem de um lago. E ali se mostrou: o que primeiramente era um emaranhado de galhos balançando gentilmente na água começou a flutuar, revelando um pássaro morto, com as asas abertas e esticadas.

Após um primeiro olhar, ela chorou silenciosamente e começou a falar sobre seu pai que morreu afogado quando ela tinha dezoito anos e do quanto ela se sentiu desde então: abandonada e desconectada. Com as lágrimas, vieram sentimentos de amor e conexão, permitindo que ela abrisse um espaço em seu coração para a paz daquela imagem e tomasse isso como uma mensagem amorosa de seu pai.

Constelações do Caos em público

Outro evento que me abriu os olhos foi uma apresentação em 2001 durante uma conferência em Würzburg, Alemanha, onde fui acompanhada por um grupo de nativo-americanos para falar sobre um treinamento que ocorreu em sua reserva.

Para complementar a palestra com uma experiência, nós decidimos fazer uma constelação com um tema de sua reserva, que se relacionava ao problema de haver onze tribos diferentes vivendo em um mesmo lugar (e algumas dessas tribos foram antigas inimigas). Dentre o grupo de aproximadamente 150 participantes, estava presente um ancião indígena do Canadá. Ele honrou o evento com suas orações iniciais.

Pouco tempo antes do congresso, Bert Hellinger apresentou sua nova abordagem para o trabalho de constelações: os movimentos da alma. Nesta maneira radicalmente nova de facilitar constelações, ele deixava os representantes encontrarem os seus próprios espaços, movimentos e expressões com um mínimo de intervenção de sua parte. Parcialmente inspirada por isso, pelas minhas próprias preferências e pelo fato de que a maioria dos nativo-americanos com quem trabalhei nunca se sentiu confortável com um facilitador de constelações dizendo a eles o que dizer ou aonde ir, senti que chegou o momento de deixar os representantes fazerem seus próprios movimentos e encontrar suas próprias palavras.

Após algum tempo entrando em contato, as pessoas que representavam as tribos começaram a balançar, obviamente com dificuldades para ficar em pé. Para lhes dar força, eu coloquei atrás delas um ancestral para dar suporte. Mas os ancestrais também começaram a balançar, então coloquei atrás dos ancestrais mais seis pessoas de modo que cada tribo ali fosse representada através de oito gerações. Nesse momento, eu tinha 12 vezes 8 pessoas no centro do círculo (onze tribos e os Estados Unidos) e os movimentos ficaram bem densos; pessoas caindo, gemendo, chorando e gritando. Era o caos no seu melhor! Uma pessoa representando os Estados Unidos disse: “Eu preciso de sangue”; outra pessoa se levantou, abriu os braços e disse que era um espírito, estando ali como uma proteção, e ainda outra pessoa acrescentou que algo de tudo aquilo se relacionava com as bruxas.

Sem entender nada no momento, eu simplesmente deixei o trabalho prosseguir. Muitos dos detalhes pareciam estranhos e só ganhariam algum sentido meses depois. O que se tornou visível em todo aquele caos era que, através dos movimentos, uma formação semelhante a uma espiral começou a emergir. O tempo estava se esgotando e, para darmos oportunidade a todos compartilharem suas experiências, paramos a constelação. Certamente foi uma tentativa assustadora em algo que nós nunca tínhamos feito antes; a constelação não nos deu nenhuma solução visível, mas mostrou que algo estava tomando forma. Com mais tempo e paciência, nós poderíamos ter visto muito mais coisas saindo dali, mas eu já estava feliz por ter percebido que aquilo que parecia com o caos poderia ser o início de um novo arranjo do sistema, uma nova ordem.

O ancião canadense que nos deu sua bênção no início me cumprimentou em agradecimento à constelação. Ele disse que foi um trabalho duro e era bom que as constelações estavam disponíveis ao público.

Pessoalmente, eu ainda tinha muitas dúvidas, especificamente sobre o “querer sangue” e a referência às bruxas. O engraçado é que, seis meses depois, alguém me presenteou com um livro que continha um artigo sobre os Estados Unidos e explicava como as caças às bruxas assolaram o país junto com a chegada dos primeiros homens brancos.

Agora, após muitos anos de experiência, eu começo a entender; posso ver onde eu tropecei; não permiti que uma ampla gama de emoções e movimentos encontrassem seu próprio fim e simplesmente não confiei o suficiente no caos. Mas a semente que foi lançada alcançou seu objetivo. Eu tinha reconhecido sua presença e não conseguiria voltar atrás para a antiga maneira de facilitar as constelações.

O caos como uma parteira

Vinda de uma educação aprofundada em Programação Neurolinguística (PNL), com suas “ferramentas para sonhadores” ricas e muito criativas, eu sempre amei explorar a relação entre técnicas diferentes. Uma das maiores ferramentas que a PNL desenvolveu é a mudança dos sistemas de crenças. Um estudante ouviu de alguém que fez constelações com sistemas de crenças (me desculpem, eu nunca descobri quem foi o gênio criativo) e em meu grupo de treinamento nós experimentamos escolher uma pessoa para cada palavra, dando um lugar a eles em uma constelação. E funcionou mais do que bem – aliás, se provou muito poderoso. Desde então, eu uso esse método sempre que alguém está apegado fortemente a uma crença ou convicção.

Paralelamente a encontrar maneiras novas e interessantes de constelar, eu comecei a facilitar constelações nas quais não é o cliente, mas o próprio representante quem escolhe seu papel. Isso não é feito frequentemente, apenas após uma investigação detalhada; eles se sentem chamados para o papel e, caso sintam, possuem “permissão” para estar naquele papel?

Nessa nova configuração, o grupo como um todo toma parte ativamente na constelação – é possível que cada indivíduo contribua, represente e divida suas percepções.

Fazendo uma retrospectiva, eu acredito que isso se iniciou na Itália. Em um grupo de cerca de 50 participantes, eu sugeri fazer uma constelação com um sistema de crenças que parecia ter muito poder sobre a cliente, atrapalhando-a em seus negócios. Hoje eu não me lembro exatamente de suas palavras; era algo como “Eu nunca poderei fazer isso” (I can never do this). Geralmente, quando os participantes sentem que eles farão parte de uma constelação, eu peço que eles levantem suas mãos e daí cabe ao cliente escolher. Mas, dessa vez, eu sugeri uma pequena mudança, pedindo a quem se sentisse chamado para um papel se levantasse e dissesse o que representava. O grupo era verdadeiramente italiano; sem muita reflexão sobre quem se sentia chamado, tinha permissão e etc. Em pouco tempo, mais pessoas se levantaram do que eram necessárias para representar as palavras. E eu tive a revelação repentina de que aquilo estava exatamente correto. Então tínhamos algo em torno de cinco “Eus”, um “poderei”, muitos “nunca”, um “fazer”, muitos “isso” e até uma pessoa para o “ponto final” (a pontuação!).

Durante o trabalho de constelações, as “palavras” começaram a se mover em uma imagem silenciosa que parecia pessoas envolvidas em uma tragédia – onde ocorria muita morte e destruição. No meio de tudo permaneciam as cinco pessoas representando o “Eu”, todas mulheres segurando umas às outras – balançando, demonstrando náusea, medo, frio, se sentindo pequenas, vulneráveis, abandonadas e perdidas. Quando perguntei à cliente se essa imagem fazia algum sentido a ela, a cliente lembrou-se de uma história que sua mãe uma vez contou a ela. Durante a guerra, a família teve de fugir de barco e sua mãe, junto com outras quatro meninas, tomou o primeiro barco separada de sua família que seguiria nos barcos seguintes. O trajeto foi através de uma tempestade e tudo o que sua mãe lembrava era das outras quatro meninas, de como elas se abraçavam com medo e todas terrivelmente nauseadas.

Depois que a imagem ganhou o seu significado, não foi preciso muito para a cliente lembrar que tudo terminou bem (todas as meninas se reuniram com suas famílias). Enquanto isso, os “Eus” e os “nuncas” se abraçaram e pareciam crianças com seus pais e tudo o que restou eram os “fazer isso” e o “ponto final”. Nós concluímos a constelação.

Um ano depois, eu comecei a acrescentar falas a esse tipo de constelação. Agora eu tinha cada representante em uma constelação de crenças se movendo, repetindo a palavra que ele representava. Isso adicionou mais ao caos; deixa a mente perplexa de maneiras que se torna impossível se apegar aos padrões antigos – e isso parece ajudar a tomar contato com camadas ainda mais profundas da intenção oculta por trás de nossas dificuldades. Isso também mostrou que, através de movimento e som, muita criatividade pode ser liberada para ajudar a encontrar novas formas incríveis de superar ou mudar uma convicção antiga.

Interações podem ser engatilhadas, como no exemplo a seguir: as palavras eram “Eu apenas sou bom quando tenho sucesso” (I am only good when I am successful). Novamente, nós tínhamos muitas pessoas representando as mesmas palavras. Os representantes falavam suas palavras cada vez mais rápido, eles quase cantavam suas palavras. Dentre eles, de repente, as palavras “a não ser” (unless) apareceram, quase inaudíveis. O cliente percebeu que algo estava diferente e entrou no círculo, se aproximando da fonte dessas palavras. Parecia que algumas das outras palavras desapareceram e o “a não ser” ficou mais e mais forte. O cliente estava então no meio, cantando com eles, “a não ser, a não ser…”, e finalmente veio com clareza e bem alto “a não ser que eu queira!”. Todo o grupo começou a cantar com a cliente enquanto ela se posicionava no centro, rindo, chorando e cantando sua nova canção “a não ser que eu queira”.

Com mais experiências com essa “constelação do caos”, meu trabalho mudou ao ponto de eu estava procurar um nome que se encaixasse à nova gestalt e também honrasse sua fonte – o trabalho de constelações familiares.

Vieram algumas sugestões, dentre elas: constelações da sabedoria, constelações coringa, constelações do caminho do amor, entre outras. Mas não importava o nome sugerido, sempre que eu ouvia as pessoas conversando sobre o meu trabalho, ficava claro que o nome era “constelações do caos”.

A constelação da Águia

Eu gostaria de terminar meu relato sobre as constelações do caos com algo que se sobressai em minha mente como um grande exemplo de como o caos pode dar a luz a uma compreensão de um tipo diferente; do tipo que parece ser além daquilo que conseguimos compreender com nossa mente; o tipo que vem do nosso coração e da nossa alma.

Aconteceu em Bellingham, Washington, onde fui convidada para facilitar um workshop de final de semana. A maioria dos participantes já havia presenciado as constelações mais de uma vez; alguns tinham formações e outros já estavam constelando com seus próprios grupos.

Nós estávamos para iniciar nossa última “parte” do trabalho, era algo para ser feito para e com o grupo inteiro. No início do workshop, todos estavam impressionados com uma fotografia de uma águia que estava pendurada na parede. Eu incluí essa grande ave em nosso ritual de abertura, onde eu convidei todas as forças “além das nossas” e seres para nos ajudar em nossos trabalhos.

Durante os três dias do workshop essa fotografia se tornou uma forte inspiração para várias pessoas. Agora, no final do workshop, parecia natural fazer uma constelação sobre nós e a águia. Nós iniciamos novamente com nossa “dança do caos” (ou seja, todos se moveram, sem intenção definida), dessa vez em silêncio. Depois de algum tempo todos os movimentos se suspenderam, formando uma forma alongada. Aquele próximo à porta começou a falar “Eu sou os olhos da águia e agora eu entendo como eu tenho de olhar para minha vida para vê-la com clareza”; “Eu sou as garras da águia, eu sou afiada e posso pegar e manter aquilo que é meu”; e alguém, se movimentando por fora do formato da água disse, “Eu sou o céu da águia, onde ela pode voar alto”; e alguém deitado ao chão disse “Eu sou a presa da água. Eu agora entendo sobre rendição”; “Eu sou a asa direita” e assim por diante. Cada um encontrou um lugar significativo, rico em percepções. Ao final, depois que as penas da cauda falaram, eu vi uma pessoa em pé com os olhos fechados, um pouco mais longe. Quando a toquei no ombro ela quase pulou. Estava conectada tão profundamente que estava “em transe”. Ela então disse, “Eu não sou a águia, e também não deixo de ser a águia”. Enquanto todos nós ficávamos em silêncio, experimentávamos essa última constelação como um ritual final em que nada mais precisava ser feito ou dito.

Alguns dias depois, eu já estava de volta à Alemanha em minha cidade natal, recebi uma mensagem do organizador do grupo do workshop. Um dos participantes enviou a ela um poema. Ele havia escrito algum tempo antes enquanto vivia em Lummi, uma ilha fora da costa de Washington onde existe uma reserva.

Eu fico e observo.
Uma águia aparece
Uma mente:
Eu estou ali
A águia está ali
A outra mente:
A águia aparece
Porque eu estou ali
A mente longe:
Eu apareço
Porque a águia está ali.

– Luther Allen

Quando nós permitimos, não apenas o fluxo das constelações toma o seu curso, mas também o uso da soma total de todos os corações, corpos e cérebros presentes, nos parecemos mais capazes de tocar em assuntos da alma – não apenas da nossa família e “tribo”, mas da própria existência com toda sua vivacidade em muitos aspectos e formas. E nós podemos sentir a conexão através da experiência direta. E nós podemos nos sentir conectados, não há ninguém com quem lutarmos. Nós nos sentimos em paz.

Título Original: Chaos Constellations
Autora
: Sneh Victoria Schnabel
Tradução: Rodrigo Diego Ramos
Fonte: Site da Consteladora – Artigo publicado na 10ª edição do jornal internacional de Constelações “The Knowing Field

About the Author

Rodrigo Ramos

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Constelador Familiar, Terapeuta Floral, Terapeuta de Regressão e Engenheiro de Software nas horas vagas. Conheceu e se apaixonou pelas Constelações em 2008, estuda e vivencia seus aportes filosóficos desde então. Acredita em um novo paradigma de saúde integral e de consciência. Faz atendimentos individuais, workshops e é um dos fundadores da Escola Curitibana de Constelações Sistêmicas. Saiba mais sobre Rodrigo